“A RAPOSA E AS UVAS”Uma raposa com muita fome sai a caça de alimentos. Por sorte, vê uma parreira carregada de belos cachos de uva maduros. Apressa-se e chega a videira para alcançar as frutas. Todo impulso interior da raposa está direcionado instintivamente para o ataque repentino.
Inicia-se, então, a movimentação e, depois de várias tentativas, ela não consegue apanhar nem se quer um dos cachos. Reúne-se a fome instintiva uma estranha e nova sensação: a decepção, o desapontamento de não atender as suas necessidades básicas. As sucessivas investidas são em vão, e uma certa atmosfera de incapacidade começa a infundir-se no seu mundo mental.
Nesse determinado momento, a raposa, frustrada, pensa, reflete sobre o seu fracasso. Ela não quer ser considerada um animal falido ou derrotado. A propósito, uma crise existencial mais danos internos do que sua necessidade biológica não atendida.
A princípio, a busca de saciar a fome totalmente circunscrita ao “estado físico”; depois, a concorrência leva a raposa a entrar em contato com um conteúdo agravante e dificultoso que atingirá sua essencialidade. Antes uma façanha extraordinária; agora uma sensação de desestima e rejeição de si mesma. Que futuro a esperava daí em diante?
Ela não podia colocar a razão contradizendo os fatos reais. De agora em diante, estava em jogo a incoerência, a falta nexo ou de lógica em sua casa íntima.
Mas, quando tudo parecia estar perdido, eis que a raposa põe as cartas na mesa, dá um “xeque mate” e diz para si mesma: “Estão verdes já vi que estão azedas e duras. Só os cães podem pegá-las.” Seu interesse mental precisava adaptar-se diante da frustrante e dura realidade, e daí tirou uma vantagem: fez uma afirmação contrária ao fato real, contou uma mentira a si mesma.
Admirável mentira (racionalização)uma conclusão que não condiz com a realidade, mas salva a estrutura íntima da raposa.
Racionalizar é inventar para nós mesmos uma história falsa. É um procedimento psicológico que permite a negação dos reais motivos, cobrindo as sensações desagradáveis que vivenciamos com justificativas equivalentes ou histórias similares.
Do mesmo modo que a raposa inventou desculpas e álibis convincentes para manter o auto-respeito, nós também, os homens, buscamos “boas razões”, ainda que falsas, para nossas atitudes e fracassos; e criamos “explicações” altamente descaracterizadas para justificar nossas frustrações.
Muitos racionalizam dizendo que falam mau da vida dos outros porque metade do mundo maldiz a outra metade. Na realidade, o que está subentendido nessa atitude é que gostamos de difamar ou desvalorizar as pessoas, porque quando fazemos isso nós nos sentimos pretensamente melhores, mais eficientes, mais capazes ou superiores perante os outros. Aí está a intencionalidade inconsciente ou não dos maledicentes.
A racionalização é um dispositivo da mente que transforma vontades ou anseios em fatos fictícios supostamente reais. É quando usamos a inteligência para negar as verdades; é um procedimento íntimo que nos torna desonestos com nós próprios. E, se não podemos ser honestos com nós mesmos, com certeza também não podemos ser honestos com nenhum outro indivíduo. Conseqüentemente, há uma ruptura ou violação no caráter da criatura. É uma forma de não expandir a consciência, e sim de desestruturar a individualidade do ser humano.
La Fontaine – e o comportamento humano
Postado por A.Oliveira às 19:27